A relevancia das mulheres na contrução civil

A invisibilidade das mulheres baianas nos canteiros de obras

Por Elenice Ramos e Eliene Ramos

A presença das mulheres na construção civil ainda é marcada por profundas desigualdades de gênero, especialmente quando se observa a realidade dos canteiros de obras na Bahia. Embora exista crescente visibilidade de mulheres em cargos técnicos, de engenharia ou de gestão no setor, as trabalhadoras que atuam diretamente nas funções operacionais — como serventes, pedreiras e armadoras — permanecem amplamente invisibilizadas, tanto no ambiente de trabalho quanto na produção acadêmica e nos debates públicos.

Essa invisibilidade não é casual. Ela decorre de uma estrutura histórica baseada na divisão sexual do trabalho, que associa a força física, a técnica e a resistência aos homens, enquanto atribui às mulheres características como delicadeza, cuidado e aptidão para tarefas consideradas “leves” ou auxiliares. Como consequência, o acesso das mulheres às funções centrais da produção é limitado, e seu trabalho, quando existente, é frequentemente desvalorizado ou tratado como extensão de habilidades domésticas.

Na Bahia, a ausência de dados estatísticos oficiais sistematizados sobre mulheres nos canteiros de obras reforça esse apagamento. Embora dados nacionais indiquem a baixa participação feminina na construção civil, não há informações detalhadas por estado e por função que permitam dimensionar com precisão a realidade das trabalhadoras operárias. Essa lacuna dificulta a formulação de políticas públicas e contribui para a naturalização da desigualdade.

Além das barreiras culturais, há obstáculos institucionais e organizacionais significativos. Faltam políticas públicas estaduais voltadas especificamente à promoção da igualdade de gênero na construção civil, bem como mecanismos eficazes de fiscalização da discriminação no setor. Nas empresas, os processos de contratação costumam ser informais e baseados em redes masculinas de indicação, o que restringe o ingresso e a ascensão das mulheres.

Mesmo quando conseguem se inserir nos canteiros, essas trabalhadoras enfrentam desafios cotidianos que comprometem sua permanência. Entre eles, destacam-se a desigualdade salarial, o assédio moral e sexual, a falta de equipamentos de proteção individual adequados ao corpo feminino e a ausência de infraestrutura básica, como banheiros e vestiários. Soma-se a isso a sobrecarga imposta pela dupla jornada de trabalho, em um setor caracterizado por jornadas rígidas e extensas.

A invisibilidade das mulheres baianas na construção civil, portanto, vai além da sub-representação numérica. Trata-se de um processo estrutural de silenciamento que articula gênero, classe e, frequentemente, raça, e que impede o reconhecimento social e profissional dessas trabalhadoras. Enfrentar essa realidade exige não apenas ampliar a produção de dados e pesquisas sobre o tema, mas também implementar políticas públicas, ações institucionais e mudanças organizacionais capazes de promover ambientes de trabalho mais justos, inclusivos e seguros.

Reconhecer e dar visibilidade às mulheres que constroem, com suas próprias mãos, os espaços urbanos é um passo fundamental para a construção de uma sociedade comprometida com a equidade de gênero e a justiça social no mundo do trabalho.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

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